O governo do Chile apresentou à Câmara dos Deputados, em 28 de outubro de 2026, o projeto de lei conhecido como "Fundo de Fundos", que autoriza a Corfo, a agência estatal de fomento, a comprar cotas de fundos de capital de risco que financiam startups, e não apenas a emprestar dinheiro, como faz hoje. A iniciativa, boletim n.º 18.819-03, tramita com urgência "suma" e propõe que a Corfo possa investir US$ 25 milhões no primeiro ano de vigência, segundo o Ministério da Economia.
O projeto fixa dois limites: a Corfo poderá ter até 35% de cada fundo de fundos e até 30% de cada fundo de capital de risco em que investir diretamente. A proposta foi apresentada pelo biministro da Economia e da Mineração, Daniel Mas, e pelo vice-presidente executivo da Corfo, José Ignacio Mujica. O diagnóstico do governo é que o Chile liderou o ranking de ambiente para capital de risco da LAVCA entre 2006 e 2018, mas hoje concentra apenas 5,8% desse investimento na América Latina.
O que é o Fundo de Fundos da Corfo
Um fundo de fundos não compra empresas, e sim cotas de outros fundos. Neste caso, reunirá recursos de vários investidores, com a Corfo como "investidor âncora", e os distribuirá entre fundos de capital de risco (venture capital) que, por sua vez, investem em startups. Segundo o resumo jurídico do DOE, o projeto cria duas vias:
| Modalidade | Fundo de fundos | Aporte direto em fundos de capital de risco |
|---|---|---|
| Limite de participação da Corfo | 35% do patrimônio de cada fundo | 30% do patrimônio de cada fundo |
| Quem administra | Uma administradora geral de fundos (AGF) fiscalizada pela CMF | Gestores privados de fundos constituídos no Chile (Lei 20.712) |
| Onde investe | Mais de 70% do ativo em fundos de capital de risco | Pelo menos 80% do ativo em startups que cumpram a lei |
| Efeito multiplicador esperado | Cerca de US$ 15 de outros investidores por US$ 1 da Corfo | Pelo menos 2,3 pesos dos demais cotistas por peso da Corfo |
| Vigência da autorização | 15 anos | 10 anos |
Fontes: Ministério da Economia e DOE Actualidad Jurídica, com base na mensagem do boletim 18.819-03. A Corfo não escolherá as startups: a decisão de investir em cada empresa fica com os gestores privados, e a seleção dos fundos deve ser feita por procedimentos públicos com critérios objetivos.
Quanto dinheiro a Corfo colocará no Fundo de Fundos
O projeto propõe que a Corfo possa aportar US$ 25 milhões no primeiro ano. Os valores dos anos seguintes serão definidos em cada Lei Orçamentária. Se a proporção de 1 para 15 estimada pelo governo se confirmasse, esses US$ 25 milhões poderiam se somar a cerca de US$ 375 milhões de outros investidores; esse número é um cálculo próprio com a proporção oficial, não uma meta do projeto.
| Dado do projeto | Valor |
|---|---|
| Boletim | 18.819-03 (mensagem presidencial) |
| Data de apresentação | 28 de outubro de 2026, Câmara dos Deputados |
| Urgência | Suma |
| Aporte da Corfo no primeiro ano | US$ 25 milhões |
| Exposição máxima da Corfo em um mesmo fundo | 35%, somando participação direta e indireta |
| Prazo do regulamento | 9 meses após a publicação da lei |
| Avaliação de resultados | A cada 7 anos (Ministério da Economia) |
Fontes: Senado do Chile, tramitação do boletim 18.819-03, Ministério da Economia e DOE. O projeto também impede que a Corfo conceda ao mesmo tempo créditos, garantias ou subsídios a um fundo do qual já seja cotista, e prevê uma opção para que os demais investidores comprem suas cotas, de modo que o capital público possa ser substituído por capital privado ao longo do tempo.

Por que o governo propõe o Fundo de Fundos
Hoje a Corfo apoia o capital de risco sobretudo com créditos preferenciais aos fundos, que depois investem em startups. O governo afirma que esse modelo ajuda as empresas a nascer, mas não a crescer. "As startups têm acesso a recursos para nascer, mas não para escalar, e acabam transferindo sua matriz para o exterior, levando emprego qualificado, propriedade intelectual e investimento", disse o biministro Mas, citado pelo Diario Financiero.
No novo esquema, a Corfo passaria a assumir riscos e retornos como mais um investidor. Segundo o DF, o desenho busca atrair investidores institucionais, como administradoras de fundos de pensão e seguradoras, que costumam exigir fundos grandes e diversificados. O mesmo debate sobre como levar a poupança de longo prazo às empresas chilenas apareceu na reforma do mercado de capitais.
- Para os fundos: poderão ter a Corfo como cotista, e não apenas como credora.
- Para as startups: mais capital na fase de crescimento, quando as rodadas são maiores.
- Para o Estado: participação nos ganhos se os investimentos derem certo, e também nas perdas.
- Condição de impacto local: os fundos que receberem recursos da Corfo devem investir no Chile pelo menos um valor equivalente ao aporte público.
Como segue a tramitação do Fundo de Fundos
O projeto está no primeiro trâmite constitucional na Câmara dos Deputados. Segundo a ficha de tramitação do Senado, foi lido em plenário no mesmo dia 28 de outubro e enviado à Comissão de Economia e, no que couber, à de Fazenda.
| Data | Trâmite |
|---|---|
| 28-10-2026 | Apresentação do projeto, com relatório financeiro n.º 261 |
| 28-10-2026 | Leitura em plenário: vai às comissões de Economia e de Fazenda |
| 28-10-2026 | O Executivo aplica urgência "suma" (mensagem 422-374) |
| Próximo passo | Primeiro relatório da Comissão de Economia |
Fonte: Senado do Chile, sistema de tramitação, consulta de 1.º de novembro de 2026. A Lei Orgânica do Congresso dá à urgência "suma" um prazo de 15 dias por trâmite, embora na prática o Executivo costume renová-la. Se a lei for aprovada, a Corfo terá de esperar o regulamento, que deve sair em até nove meses, antes de fazer o primeiro aporte.

O que muda para as startups chilenas
O Fundo de Fundos não entregará dinheiro diretamente aos empreendedores: os recursos chegarão por meio dos fundos de capital de risco que receberem aportes. Para uma startup em fase inicial, os instrumentos da Corfo e da Start-Up Chile continuam sendo a porta de entrada, como explicamos no guia das chamadas da Corfo e da Start-Up Chile de novembro. O novo mecanismo mira a etapa seguinte, quando uma empresa já validada precisa de rodadas de vários milhões de dólares.
O site especializado Ecosistema Startup resumiu a mudança assim: o Estado "deixa de ser apenas um credor com garantias e passa a sentar à mesa do capital, com regras de mercado e sem escolher startups". O debate na Comissão de Economia definirá se os limites de 35% e 30% e o valor inicial de US$ 25 milhões serão mantidos.
Perguntas frequentes
O que é o projeto Fundo de Fundos?
É o projeto de lei (boletim 18.819-03) que autoriza a Corfo a investir como cotista minoritária em fundos de fundos e em fundos de capital de risco que financiam startups. Foi apresentado à Câmara em 28 de outubro de 2026.
Quanto a Corfo poderá investir?
O projeto propõe US$ 25 milhões no primeiro ano. A Corfo poderá ter até 35% de cada fundo de fundos e até 30% de cada fundo de capital de risco, com exposição máxima de 35% em um mesmo fundo.
A Corfo escolherá em quais startups investir?
Não. As decisões de investimento em cada empresa ficam com os gestores privados dos fundos, e a Corfo deverá selecionar os fundos por procedimentos públicos.
Quando começaria a funcionar?
Depende da tramitação. Depois de publicada a lei, o regulamento deve sair em até nove meses, e só então a Corfo poderá fazer aportes.



