A equipe técnica do Fundo Monetário Internacional (FMI) e as autoridades argentinas chegaram a um acordo em nível técnico ("staff-level agreement") sobre a terceira revisão do programa de Serviço Ampliado de 48 meses. Se a diretoria executiva do organismo aprovar, a Argentina poderá receber cerca de US$ 900 milhões (600 milhões de direitos especiais de saque, DES), segundo o comunicado do FMI divulgado na segunda-feira, 26 de outubro (horário de Washington).
O FMI espera levar a revisão à diretoria "no início de dezembro", depois de concluídas "as medidas acordadas restantes". O programa, assinado em abril de 2025, soma US$ 20 bilhões, segundo o TN. Esta reportagem resume o que diz o comunicado, os números que o FMI destaca e o que ainda falta.
O que diz o comunicado do FMI sobre a Argentina
O organismo afirma que o programa "continua a apresentar resultados impressionantes, apesar de um contexto global mais complexo", e atribui os avanços a políticas fiscal e monetária prudentes. Estes são os números que menciona:
| Indicador destacado pelo FMI | Valor |
|---|---|
| Reservas internacionais líquidas em relação à meta do fim de junho | Cerca de US$ 4 bilhões acima |
| Compras de divisas do Banco Central em 2026 | Perto de US$ 16 bilhões |
| Divisas captadas pelo Tesouro no mercado local | Mais de US$ 5 bilhões |
| Repos do BCRA refinanciados | US$ 6 bilhões (US$ 5 bilhões vencem em 2028) |
| Financiamento bancário com garantias de credores oficiais | US$ 3,2 bilhões, e mais US$ 1 bilhão antes do fim do ano |
| Investimentos aprovados no RIGI | Mais de US$ 76 bilhões |
| Superávit primário de 2026 | 1,4% do PIB |
Fonte: comunicado do FMI sobre a terceira revisão (texto em inglês reproduzido pela Mirage News; o FMI publica seus comunicados em sua página da Argentina). Se a meta fiscal for cumprida, 2026 será o quarto ano consecutivo com superávit primário e equilíbrio fiscal geral.

As quatro áreas acordadas entre o FMI e a Argentina
- Política fiscal: a âncora fiscal continua central. Superávit primário de 1,4% do PIB em 2026 e esforço semelhante em 2027, como reflete o projeto de Orçamento 2027 enviado ao Congresso.
- Política monetária: o Banco Central continuará fixando metas de agregados monetários e manterá a flutuação do câmbio dentro do sistema de bandas cambiais.
- Reservas e financiamento: continuar acumulando reservas com financiamento do mercado local, de parceiros oficiais e de privatizações. As autoridades se comprometeram a estar prontas para voltar aos mercados internacionais "quando as condições permitirem" e a ativar linhas de crédito contingentes se necessário.
- Reformas estruturais: aprofundar o mercado de capitais local, facilitar os investimentos do RIGI e avançar nas concessões de infraestrutura recém-adjudicadas.
Fonte: comunicado do FMI. O Orçamento mencionado pelo Fundo ainda está em discussão: os detalhes estão na reportagem sobre o Orçamento 2027 na Câmara dos Deputados.
Quando chegam à Argentina os US$ 900 milhões do FMI
O acordo técnico não libera o dinheiro de imediato. Faltam dois passos: concluir as medidas pendentes e obter a aprovação da revisão pela diretoria executiva, prevista para o início de dezembro.
| Etapa | Data | Situação |
|---|---|---|
| Acordo do programa de Serviço Ampliado (US$ 20 bilhões) | Abril de 2025 | Em vigor |
| Acordo técnico da terceira revisão | 26 de outubro de 2026 | Alcançado |
| Vencimento de juros com o FMI | 1º de novembro de 2026 | Cerca de US$ 800 milhões, segundo o Infobae |
| Análise na diretoria do FMI | Início de dezembro de 2026 | Pendente |
| Desembolso | Após a aprovação da diretoria | Cerca de US$ 900 milhões (600 milhões de DES) |
Fontes: FMI, Infobae e TN. Os veículos não coincidem no valor em dólares: o FMI fala em "cerca de US$ 900 milhões", enquanto o TN calcula perto de US$ 870 milhões. A diferença se explica porque o desembolso é fixado em DES, e seu valor em dólares muda com a cotação dessa moeda.

O programa da Argentina com o FMI em números
O acordo vigente é um Programa de Financiamento Ampliado (EFF, na sigla em inglês), a linha do FMI pensada para países com problemas de balanço de pagamentos que exigem reformas de vários anos. Foi anunciado em nível técnico em 8 de abril de 2025, segundo o comunicado de imprensa n.º 25/095 do FMI.
| Dado do programa | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| Montante total | US$ 20 bilhões | FMI, comunicado 25/095 |
| Equivalente em DES | 15,267 bilhões de DES | FMI, comunicado 25/095 |
| Tamanho em relação à cota da Argentina no FMI | 479% da cota | FMI, comunicado 25/095 |
| Duração | 48 meses | FMI |
| Desembolso ligado à terceira revisão | 600 milhões de DES (cerca de US$ 900 milhões) | FMI, outubro de 2026 |
Fontes: FMI, abril de 2025 e FMI, outubro de 2026. Cada revisão funciona como um exame: a equipe técnica verifica se as metas foram cumpridas (reservas, déficit, emissão) e, se a diretoria aprovar, a parcela seguinte é liberada. Quando uma meta não é cumprida, o país pode pedir uma dispensa, algo que o comunicado desta revisão não menciona.
O que o acordo não resolve
O comunicado insiste em que a Argentina deve voltar a se financiar nos mercados internacionais. Isso hoje é mais difícil: o risco-país supera 750 pontos-base, contra cerca de 400 pontos em julho, segundo o Infobae. O que esse indicador mede e por que sobe está na explicação sobre o risco-país da Argentina.
Também segue aberta a discussão sobre quantas reservas o Banco Central deve comprar. Segundo o Infobae, alguns economistas, como Ricardo Arriazu, afirmam que comprar dólares nesse ritmo freia o crédito, enquanto o ministro da Economia, Luis Caputo, disse que as compras poderiam se aproximar de US$ 20 bilhões no fim do ano se o ritmo se mantiver. A atividade econômica também desacelerou, como mostrou o comércio com o Brasil após a reeleição de Lula.
Perguntas frequentes
O que o FMI aprovou para a Argentina?
Um acordo em nível técnico (staff-level agreement) sobre a terceira revisão do programa de Serviço Ampliado. Falta a aprovação da diretoria executiva.
Quanto dinheiro a Argentina vai receber?
Cerca de US$ 900 milhões (600 milhões de DES), segundo o FMI. Alguns veículos calculam perto de US$ 870 milhões por causa da cotação do DES.
Quando o desembolso será aprovado?
O FMI prevê levar a revisão à sua diretoria no início de dezembro de 2026.
De quanto é o programa do FMI com a Argentina?
US$ 20 bilhões, em um acordo de 48 meses assinado em abril de 2025.
Que meta fiscal o FMI pede?
Superávit primário de 1,4% do PIB em 2026 e esforço semelhante em 2027.



