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Fundo E das AFP do Chile: por que caiu 10,39% em 2026 e o que a Câmara vai investigar

O Fundo E, o mais conservador das AFP do Chile, acumula queda real de 10,39% entre janeiro e setembro. O que aconteceu com os derivativos de juros, o que dizem o regulador e as AFP e o que querem os deputados.

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Fundo E das AFP do Chile: por que caiu 10,39% em 2026 e o que a Câmara vai investigar

Foto: Banfield, CC BY-SA 2.5 ar, Wikimedia Commons

O Fundo E, o mais conservador dos cinco multifundos administrados pelas gestoras privadas de previdência do Chile (AFP), acumula rentabilidade real negativa de 10,39% entre janeiro e setembro de 2026, segundo a [Superintendência de Pensões](https://www.spensiones.cl/portal/institucional/594/w3-article-17161.html). Só em setembro caiu 4,92%. A perda chegou ao Congresso: deputados da bancada Independentes-PPD começaram a recolher assinaturas para uma comissão de investigação e apresentaram denúncia por possível administração desleal, informou a Cooperativa.

É uma queda incomum para um fundo pensado para quem está perto de se aposentar. Veja os números dos cinco fundos, o que explica a queda do Fundo E, o que respondem as AFP e o que um filiado pode fazer.

Quanto caiu o Fundo E e como foram os outros fundos

FundoPerfilSetembro de 2026Janeiro a setembro de 2026
AMais arriscado-0,65%+8,61%
BArriscado-1,23%+5,26%
CIntermediário-3,10%-1,50%
DConservador-4,19%-6,38%
EMais conservador-4,92%-10,39%

São rentabilidades reais, ou seja, descontada a inflação medida pela UF, a unidade indexada do Chile. A Superintendência atribuiu as perdas de setembro à renda fixa local, à Bolsa chilena (o IPSA caiu 3,40%) e à alta dos juros. Os fundos de pensão somavam 5.565,75 milhões de UF no fim de setembro, cerca de US$ 235,5 bilhões.

Em pesos: um filiado com 10 milhões de pesos chilenos no Fundo E no início do ano teria hoje cerca de 8,96 milhões em poder de compra equivalente. Em 2025, o mesmo fundo havia rendido 8%, segundo o La Tercera.

Por que o Fundo E caiu: a aposta nos juros dos EUA

A explicação está nos derivativos de juros chamados swaps. Segundo o La Tercera, as AFP recebiam uma taxa fixa e pagavam uma variável, posição que ganha quando caem os juros longos dos Estados Unidos. O acadêmico Sebastián Cea (Universidad de los Andes) comparou a operação a comprar um título longo do Tesouro americano financiado com dívida de curto prazo, sem desembolsar o capital.

O objetivo era alongar a duração do Fundo E, sua sensibilidade aos juros, para casá-la com a renda vitalícia que muitos filiados contratam ao se aposentar. A duração passou de cerca de 14 anos no fim de 2024 para 18 anos no fim de 2025; uma renda vitalícia casa melhor com uns 13 anos. Quando os juros americanos subiram, em vez de cair, as posições geraram perdas.

DadoValor
Filiados no Fundo E (junho de 2026)774.243
Deles, com 60 anos ou maisCerca de 69.000
Exposição máxima a derivativos do Fundo ECerca de 3,7% do fundo
Limite regulatório para os fundos D e E2%
Duração do Fundo E no fim de 202518 anos
Queda extra atribuída à maior duraçãoCerca de 3 pontos no ano

Fonte: La Tercera, com dados do regulador e de uma AFP. O valor total das perdas não está claro: o The Clinic cita US$ 7,7 bilhões em derivativos, enquanto o deputado Jaime Araya falou em "11,6 bilhões de dólares" (The Clinic). Parte desses valores são perdas de marcação, não necessariamente realizadas.

Torres do setor financeiro de Santiago conhecido como Sanhattan
O setor financeiro de Santiago, onde operam as gestoras. Foto: Rjcastillo, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

O que a Câmara vai investigar

Os deputados Jaime Araya e Héctor Ulloa lideram o pedido de comissão especial de investigação, que precisa da assinatura de dois quintos da Câmara. Querem apurar responsabilidades das AFP e de quem deveria fiscalizá-las. Ulloa chamou de "aberrante" que as gestoras tratem como normal uma perda de 10% (Cooperativa).

Em paralelo, o deputado José Montalva explicou que perder dinheiro não é crime, mas poderia configurar administração desleal se o dinheiro foi perdido conscientemente em uma operação arriscada para beneficiar as AFP e não os filiados. É uma hipótese dos denunciantes que o Ministério Público terá de analisar.

DataMarco
2020 a 2022Três saques de cerca de US$ 50 bilhões encurtam a duração do Fundo E para menos de 8 anos
Fim de 2024A duração do Fundo E chega a cerca de 14 anos
Novembro de 2025O Banco Central alerta sobre os derivativos de juros em seu Relatório de Estabilidade Financeira
Fim de 2025A duração do Fundo E sobe para 18 anos
9 de abril de 2026O regulador fixa limites aos derivativos, com 210 dias para adequação
Setembro de 2026Os juros sobem nos EUA; o Fundo E cai 4,92% no mês
16 de outubro de 2026Deputados anunciam comissão de investigação e denúncia

O que dizem as AFP e o regulador sobre o Fundo E

  • Associação de AFP: "Isto não é uma aposta das AFP. É uma estratégia de longo prazo", segundo o La Tercera.
  • Superintendente de Pensões, Joaquín Cortez: disse ao El Mercurio que a exposição "era inconveniente" e que o problema foi o tamanho, não o tipo de investimento. Convocou as AFP uma a uma para cumprir os limites.
  • Ex-superintendente Osvaldo Macías: "Um fundo de pensão não tem como objetivo especular". Afirmou que a Superintendência advertiu as gestoras repetidas vezes.
  • Governo: o ministro da Economia, Daniel Mas, atribuiu o episódio a decisões do governo anterior.
  • Ex-ministros da Fazenda: Ignacio Briones chamou a gestão de "imprudente"; Nicolás Eyzaguirre disse que não se pode deixar as AFP "fazerem apostas" com a poupança obrigatória.

Segundo o La Tercera, o regulador pode ordenar a devolução de dinheiro aos filiados se ficar provado o descumprimento das normas.

Prédio da Bolsa de Comércio de Santiago no centro da cidade
A Bolsa de Comércio de Santiago, no centro. Foto: MadnessAttack, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons.

O que um filiado do Fundo E pode fazer

  • Não vender por pânico. Trocar de fundo agora transforma uma perda de valor em perda definitiva.
  • Se está para se aposentar, o consultor Felipe Gormaz sugere avaliar o saque programado em vez de comprar já uma renda vitalícia, para não realizar a queda.
  • Conferir o extrato no site da sua AFP e comparar com os outros fundos.
  • Acompanhar as mudanças de regras: a partir de abril de 2027 os cinco multifundos serão substituídos por dez fundos geracionais.

Nenhuma AFP ficou abaixo da rentabilidade mínima desde os anos 1990; se isso ocorresse, teria de cobrir a diferença com capital próprio. Para o contexto, veja o desemprego no Chile nos últimos 50 anos e a previsão de crescimento do FMI para o Chile.

Perguntas frequentes

Quanto o Fundo E caiu em 2026?

Rentabilidade real de -10,39% entre janeiro e setembro de 2026, segundo a Superintendência de Pensões. Em setembro caiu 4,92%.

Por que o Fundo E caiu se é o mais conservador?

Por causa de derivativos de juros que ganhavam se os juros longos dos EUA caíssem. Os juros subiram e as posições perderam valor.

Qual fundo rendeu mais em 2026?

O Fundo A, com +8,61% real entre janeiro e setembro.

Vale a pena sair do Fundo E?

Depende da idade e do prazo. Trocar depois de uma queda torna a perda definitiva; convém avaliar com a AFP ou um consultor previdenciário.